O cronista das Arcadas era da turma 1954, tendo nos deixado

aos 75 anos, em fevereiro de 2005.

Hoje destacamos de seu livro

 

Os Filhos Joviais de São Francisco”

O texto: “O Centro”

Aprecie

O Centro

As dificuldades das moças também se estendiam ao seu ingresso no Centro. A “canalha” nem de longe admitia essa hipótese.

Fundado em 1903, o Centro Acadêmico XI de Agosto tinha sua sede na parte inferior do prédio da Faculdade, na face voltada para a Rua Riachuelo. Ali ficavam as salas da presidência e da barbearia de um lado e, de outro, o célebre restaurante do Chico Elefante, onde mesas de refeição e de bilhar conviviam ruidosamente. O Centro era o que se podia chamar de um organismo vivo à parte, em que não vigiam as normas válidas para os andares superiores.

A “canalha”, aquele grupo simpático e barulhento, para o qual a linguagem corrente era a da chalaça pesada, via na presença das colegas uma invasão de sua intimidade ou, ao menos, uma restrição à sua liberdade de comportar-se despoliciadamente. O Centro, assim, teria sido o precursor do Clube do Bolinha, em sua versão boêmia.

Houve uma veterana, no entanto, que não aceitou essa postura radical e resolveu desafiar a “canalha”.

A essa moça, que levava a vida sem receio de enfrentar os preconceitos da época, sobejava de ousadia. Não lhe faltou, pois, a coragem de mandar avisar os frequentadores do Centro de que lá estaria em dia e hora marcados.

Fez- se um nervoso silêncio quando a desenvolta veterana chegou ao Centro, sozinha e com pontualidade britânica. Por não conhecer o local, ela a princípio mostrou alguma indecisão, mas logo se refez e tomou o firme destino do restaurante.

A jovem estava visivelmente tensa, da mesma forma, aliás, que o Chico Elefante. Olhando em redor, ela acendeu demoradamente um cigarro e sentou-se na primeira mesa que encontrou vaga.

De repente, o ar começou a se incendiar: um veterano, surgindo não se sabe de onde, postou-se na mesa vizinha, inteiramente nu. Bem… quem sabe não totalmente nu, porque calçava meias e sapatos e simulava ler um jornal que lhe disfarçava a nudez. Enquanto ele, com o canto dos olhos saboreava o presumível embaraço da moça, ela permanecia impassível, como se já previsse alguma patuscada.

Sem se levantar, o legítimo rebento da “canalha” pediu uma cerveja ao apavorado Chico Elefante, no que foi prontamente atendido; e a jovem, que continuava aparentemente imperturbável, replicou no mesmo tom, exigindo nada menos do que um conhaque.

O duelo surdo prosseguiu sob os olhares preocupados da rapaziada, que bebericava e jogava bilhar em silêncio. Percebia-se o implícito receio de um desenlace menos feliz.

Esgotada a primeira cerveja, o estudante levantou-se continuamente e pediu outra. A audaz invasora, sem se intimidar, ergueu-se também e, mirando maliciosamente as partes varonis do colega, corrigiu lhe a encomenda:

– Suspenda a cerveja, Chico! O moço está necessitando de um copo de vitaminas.

Dito isso, foi-se retirando vagarosamente, em meio ao espanto geral. À sua saída, Roberto, o barbeiro, fez-lhe o elogio definitivo:

– Essa garota merecia ser homem.